Sábado, 6 de novembro de 2021, 00:30
JORNAL O POVO - VIDA & ARTE
ADAPTAÇÃO DO LIVRO DE JOSÉ DE ALENCAR, REVELA PROTAGONISTA, por Luiza Ester
FILME "IRACEMA", NOVA VERSÃO DO ROMANCE HOMÔNIMO DE JOSÉ DE ALENCAR, DIVULGA A ATRIZ SELECIONADA PARA O PAPEL DA PROTAGONISTA COM EXCLUSIVIDADE AO O POVO
No romance Iracema: lenda do Ceará (1865), o escritor cearense José de Alencar descreve: "A virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a corça selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu". Na nova adaptação da ficção alencarina para o cinema, com direção do cineasta Daniell Abrew, a atriz Sara Borges, 21, dará vida à protagonista - mulher indígena que virou símbolo cultural do Estado.
Assim como a Iracema da literatura, Sara é natural do município cearense de Ipu, localizado na Serra da Ibiapaba (também conhecida como Serra Grande), a cerca de 295,4 km da Capital Fortaleza. A integrante do grupo teatral Luís Gerardo Cordeiro de Sousa Filho, dirigido pela professora Gorete Corrêa, foi selecionada entre nove atrizes que concorriam ao papel. A produção do filme anuncia o resultado com exclusividade ao O POVO.
O longa-metragem está em fase de pré-produção, com a realização de estudos de roteiro e testes de elenco. Na trama do livro, Iracema pertence ao povo tabajara, no Brasil do século XVII. Filha do pajé Araquém e irmã de Cauby. Na lenda sobre a formação do Ceará, a protagonista é a virgem responsável por preservar o segredo da Jurema, dádiva da divindade Tupã. Do sertão ao mar, passando pela serra, ela percorre as paisagens do Estado. A história ainda aborda a relação entre a protagonista e o colonizador europeu Martim, em meio a guerras e abandonos.
Iracema, de acordo com Alencar, significa "lábios de mel" em guarani. Na adaptação para o cinema, "Iracema" não será o nome da mulher indígena, mas, sim, sua condição de ser portadora do segredo da Jurema. Assim revela o diretor, Daniell Abrew. As gravações do filme devem acontecer em julho de 2022, justamente na Serra da Ibiapaba. Os diálogos serão em tupi-guarani, tronco linguístico de idiomas dos povos originários do País. O lançamento da adaptação está previsto para 2024.
"Essa é uma obra desenvolvida para os Ibiapabanos", afirma Daniell Abrew. As inscrições para o cadastro do elenco ficaram abertas de 27 de maio a 31 de julho deste ano. Podiam participar da seleção apenas atores ou atrizes nascidos na Serra da Ibiapaba ou residentes nos municípios da região - Carnaubal, Croatá, Guaraciaba do Norte, Ibiapina, Ipu, São Benedito, Tianguá, Ubajara e Viçosa do Ceará.
Segundo o diretor, "o movimento foi tão grande que tiveram inscrições não só dos nove municípios da Serra Grande, mas também de Fortaleza e de outros estados do Brasil". Mas Iracema deveria ser da Ibiapaba. "Nós não temos nada feito por cearenses, principalmente na Serra", opina Daniell. Em 2 de outubro, nove candidatas ao papel de Iracema foram convocadas para o Centro Cultural de Ibiapina (CCI). Sob a coordenação da atriz e preparadora de elenco Karine Ogunté, as atrizes passaram por uma série de entrevistas e sessões fotográficas.
Após a triagem para chegar às três finalistas, Sara Borges foi escolhida. Para Daniell, a atriz ganhou o papel não somente por ter "feições indígenas", mas também pela presença e por ser natural de Ipu. "Ela vive em Ipu. É uma cidade que respira Iracema. Tem a Praça de Iracema, tem a Bica do Ipu (também conhecida como Bica de Iracema, por ser onde a protagonista tomava banho na ficção)", explica o diretor.
A produção do filme está trabalhando na escolha de Martim. De acordo com Daniell, não há como saber exatamente a diferença de idade entre Iracema e o colonizador português. Realizando um parâmetro com a época da obra, eles seriam bem jovens. O diretor afirma que Sara consegue "fazer essa mulher Iracema, ao mesmo tempo que consegue fazer algo mais juvenil". Daniell Abrew adianta: "Vamos ver muito Iracema, mas o filme também terá outras abordagens".
ADAPTAÇÕES
Iracema (1865) é considerado um clássico da literatura brasileira. Para o produtor e roteirista do filme, Felipe Negreiros, o livro une os municípios da Serra Grande numa das histórias mais emblemáticas da literatura escrita por um cearense. Ao mesmo tempo, o romance tem sido a obra de José de Alencar mais discutida. Segundo Daniell Abrew, no livro, há certos elementos em que a figura do colonizador pode ser vista de uma forma romantizada. Além disso, algumas abordagens da época vão de encontro ao que se entende sobre a valorização das mulheres, dos povos indígenas, do povo preto e LGBTQIA na sociedade contemporânea.
A adaptação para o cinema não será necessariamente fiel à ficção alencarina. Ao invés da figura do pai e do irmão, por exemplo, o filme retratará a mãe e a irmã de Iracema. Trata-se, de acordo com o diretor, de respeitar as transformações ao longo do tempo, sem desvincular do clássico. Daniell, inclusive, nutre encantamento de longa data pela obra de José de Alencar. O projeto do longa-metragem surgiu em 2016, quando o cineasta Jonas Luis da Silva, de Icapuí, amigo do diretor, pediu para transcrever o livro num formato para o cinema.
Após a morte de Jonas Luis, em 2018, Daniell decidiu começar tudo "do zero". Com o roteirista Felipe Negreiros, algumas intervenções foram realizadas. "É uma obra de 1865, os valores mudaram", diz o diretor. Durante o período de reclusão, devido à pandemia da Covid-19, em 2020, os profissionais amadureceram o projeto.
Homenagem póstuma ao cineasta Jonas Luis da Silva, de Icapuí, o filme conta com o apoio das nove prefeituras da Serra da Ibiapaba. Segundo o diretor, a parceria se mantém nas fases de pré, produção e pós do longa. As gravações iniciam em Ibiapina e seguem para os demais municípios da serra. Conforme a passagem pela região, o núcleo principal se mantém, mas o elenco ganha artistas de cada lugar. Ao final, Daniell estima que cerca de 400 atores estarão envolvidos na produção. Em 2024, os nove municípios devem receber uma pré-estreia simultânea.
No livro, há passagens da protagonista pelo que seria a Lagoa da Parangaba, a Lagoa da Messejana e a Praia do Mucuripe, na Capital. De acordo com Daniell, "é impossível não ter locação em Fortaleza". Por isso, a equipe estuda a questão da espacialidade e a utilização de efeitos especiais para simular a época colonial. Uma das estratégias será filmar no litoral de Camocim, como representação da costa fortalezense. Segundo o diretor, "o filme pode agregar valores e ressignificar algo de outra época".
FOTO
Davi Sá/Divulgação
A atriz Sara Borges, natural do município cearense de Ipu,
é escolhida para protagonizar o filme "Iracema",
nova versão do romance homônimo de José de Alencar.
JORNAL O POVO
VIDA & ARTE
Redação: Luiza Ester
Publicado em 6 de novembro de 2021, às 00:30
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Filme "Iracema", adaptação do livro de José de Alencar, revela protagonista