Segunda-Feira, 14 de setembro de 2015
JORNAL DIÁRIO DO NORDESTE - CADERNO 3
FILME REVISITA O MITO DO “NAVEGANTE NEGRO”, por Iracema Sales
PREVISTO PARA MARÇO DE 2016, O FILME “O DRAGÃO DO MAR” SEGUE COM GRAVAÇÕES NAS CIDADES DE ICAPUÍ E ARACATI
Sacrifício e união dos atores. Essa foi a fórmula encontrada pelo diretor Daniell Abrew para driblar o corte sofrido no orçamento do longa-metragem “O Dragão do Mar”. Estimado, inicialmente, em R$ 1,8 milhão, após aprovação no edital Mecenas do Ceará, conseguiu autorização da Secretaria da Cultura do Estado (Secult) para captar apenas R$ 200 mil.
Desse total, somente R$ 150 mil foram captados, explica Abrew, reconhecendo a dificuldade de executar a obra, cuja maior parte do elenco é formado por atores africanos, incluindo uma atriz americana.
“Na verdade, não dá”, confessa o diretor, que recorre à dedicação dos atores, que estão se doando. Para o diretor, trata-se de grande produção, com estimativa de 3h30 de duração, com locações nas cidades de Aracati, Fortaleza, Icapuí e Redenção. No momento, a equipe de produção concluiu as gravações na Capital e Redenção, sendo retomadas no dia 21, em Icapuí e Aracati, finalizando a primeira etapa do filme, que conta com 1/3 concluído.
“Temos uma hora gravada”, festeja Abrew, que pretende levar para a telona a história de vida do jangadeiro Francisco José do Nascimento (1839-1914) ou Chico da Matilde, um dos protagonistas da luta pela libertação dos escravos no Ceará.
O ator Roberto Kwénge, nasceu em Moçambique, com um ano veio para o Brasil, sendo registrado no Ceará, interpretará o Dragão Mar, em diversas fases de sua vida. Por isso, passará por processo de envelhecimento. O projeto é complexo, argumenta Abrew.
Só roteiro soma 208 páginas. Assinado por Jonasluís da Silva, de Icapuí, foi escrito no ano passado. Camillo Vidhal, assina a produção do longa que conta a história desde o nascimento de Chico da Matilde, em Canoa Quebrada, até sua morte, em Fortaleza.
Finalização
O filme contará a trajetória Chico da Matilde, líder dos jangadeiros e prático-mor, que teve participação ativa na abolição dos escravos no Ceará. A então província foi pioneira na libertação dos escravos no Brasil, daí ter recebido a alcunha de “Terra da Luz”.
A libertação dos negros cativos aconteceu em 25 de março de 1884, a partir de movimento iniciado em 1879. É justamente essa história que o drama-aventura pretende contar. Um dos marcos da história é o ano de 1881, quando o jangadeiro cearense se recusou a transportar para os navios negreiros os escravos vendidos para o Sul do País. Abrew atenta para a repercussão nacional da atitude do abolicionista.
Com estreia no Ceará prevista para março do próximo ano, o filme deve ser finalizado até dezembro. “É o quinto da minha carreira. Mas comecei fazer cinema aos sete anos”, confessa, trazendo no currículo curtas, médias e longas. Faltam 25 dias de gravação para concluir essa primeira etapa da produção.
DESTAQUES DA MATÉRIA
A escravidão no estado do Ceará e a luta de Chico da Matilde - o Dragão do Mar - vão ser tema do filme
O ator Roberto Kwénge, nascido em Moçambique e que com um ano de idade veio para o Brasil, interpretará o Dragão Mar
Com estreia no Ceará prevista para março do próximo ano, o filme - quinto Daniell Abrew - deve ser finalizado até dezembro
As últimas locações serão realizadas em Icapuí, com cenas também em Aracati, cidade natal de Chico da Matilde. O processo de edição será realizado nos meses de outubro, novembro e dezembro.
As gravações prosseguem no mês de outubro. As gravações em Fortaleza terminaram e foram revisitados locais como o Sobrado José Lourenço, a Casa de Juvenal Galeno, abrigou a Sociedade Cearense Libertadora e trilha do Rio Cocó. No município de Redenção, foram realizadas as gravações ambientadas em senzalas.
O diretor ressalta o cuidado com a maquiagem dos atores, devido à alta definição da imagem, sendo necessário a realização de testes, sobretudo nas cenas de envelhecimento dos atores. Fala sobre o rigor com a cenografia e o figurino, que fazem alusão a épocas antigas. “Não pode aparecer nada contemporâneo”.
O Personagem
Quando nasceu, em 1839, em Canoa Quebrada, município de Aracati, o então menino, Francisco José do Nascimento, não imaginava que veria seu nome projetado no contexto da história nacional.
Ao participar ativamente da luta pela abolição dos escravos na província do Ceará, movimento que começou em 1879, o jangadeiro, que se tornou prático-mor, ganhou nome novo: Dragão do Mar. Conhecido como Chico da Matilde, na comunidade de pescadores, mais tarde tornar-se-ia líder dos jangadeiros na luta contra a escravidão no Ceará.
Em 1884, o Estado faz história ao se tornar a primeira província brasileira a libertar os escravos, e o jangadeiro teve participação no ato que repercutiu Brasil afora. O movimento abolicionista, materializado na Sociedade Cearense Libertadora, reuniu pessoas de elite econômica e intelectual, que foram reconhecidas pela imprensa abolicionista nacional.
Porém, entre os homenageados, um nome não pertencia à elite, era de um trabalhador do mar. Líder dos jangadeiros, convoca, em 1881, os companheiros a aderirem à luta contra a escravidão. Da recusa de transportar cativos para os chamados navios negreiros, nasceu o mito “Dragão do Mar”, conhecido também como “navegante negro”.
Seu rosto estampou uma edição da Revista Illustrada, publicação satírica, política, abolicionista e republicana, que circulou no Rio de Janeiro, entre 1876 e 1898, do ítalo-brasileiro Angelo Agostini. O artista - um dos pioneiros das histórias em quadrinhos do País - retratou o cearense.
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